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Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais
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Arquivo | 2008 Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro | 2007 Dezembro Novembro Outubro
Pequenos passos para afastar Mugabe, The New Republic, 23.07.2008
Depois de conseguir o que queria – permanecer no poder – e sem qualquer réstia de mal-estar pelo que foi necessário fazer para o conseguir, Mugabe passeou-se o mês passado em Sharm El Sheik, na cimeira da União Africana (UA). Mas para o povo que conta já 28 anos de Mugabe, a perspectiva de não se sabe quanto mais tempo sob o seu domínio não é assim tão serena. Para o The New Republic, o resto do mundo tem uma palavra a dizer. Não é possível que se continue a legitimar a posição de Mugabe, como aconteceu com a aceitação da sua presença na Cimeira da UA. Pequenos sinais de solidariedade para com o povo zimbabueano, por parte de Estados e empresas «ocidentais», poderão ter impactos significativos. Mas, acima de tudo, importa apoiar os vencedores legítimos das últimas eleições: Tsvangirai e o Movimento para a Mudança Democrática. O reconhecimento internacional de Tsvangirai como presidente do Zimbabué, um convite para uma visita oficial a Washington, e o impedimento de Mugabe e dos seus homens nas Nações Unidas, seriam pequenos mas importantes passos para o afastamento do ditador.
Soluções para o problema curdo, Today’s Zaman, 22.07.2008
Numa série de dois artigos publicados no Today’s Zaman, Altan Tan, um especialista na questão curda, perfila um conjunto de soluções para o problema curdo. Entre as propostas dos nacionalistas curdos, que defendem a ideia de criação de um Estado soberano e independente, e dos que apoiam uma federação étnica (uma proposta desajustada à realidade turca, mais facilmente aplicável no Iraque, Síria ou Irão, segundo Tan), o autor subscreve aquele que considera o mais realista dos projectos: o da coexistência. Primeiro, porque os mil anos de história comprovam, à excepção do período da República, a eficácia desta opção; e depois porque há uma unidade religiosa entre turcos e curdos, essencial para as duas «comunidades» coexistirem. Impõe-se, no entanto, a inversão das políticas de negação, repressão e assimilação das últimas décadas. Em suma, será necessário revitalizar a ideia de coexistência, sustentando-a, nomeadamente, num novo contrato social.
Consertar a fractura muçulmana, International Herald Tribune, 21.07.2008
A ideia de um «crescente xiita» tem ganho popularidade como expediente intelectual para explicar o mundo muçulmano ao ocidente. Mas a teoria está errada, escreve Reza Zia-Ebrahimi no International Herald Tribune. Não só ignora a complexidade das múltiplas pertenças na região, como não tem em conta factores como os que estão por detrás de lutas ocasionais entre xiitas. No entanto, apesar destas falhas, a teoria aponta para um problema real, o da tensão crescente entre sunitas e xiitas em diversos pontos do Médio Oriente. Neste aspecto, a Arábia Saudita é um importante laboratório. A melhoria das relações entre os dois grupos neste país teria importantes repercussões para o resto do mundo muçulmano. Dado o alerta crescente no reino para um possível domínio xiita na região e a abertura demonstrada pelo Rei Abdullah, os tempos para a tomada de decisões corajosas são propícios. Se se estabelecer aqui um modus vivendi que respeite os xiitas sauditas, poderá haver um impacto positivo nas relações entre sunitas e xiitas no resto do mundo.
Uma mensagem de Obama para os europeus , Financial Times, 18.07.2008
Na visita de Obama à Europa haverá boas intenções, de ambos os lados. De facto, o candidato democrata à Casa Branca e os europeus estão em sintonia em vários pontos: no erro que foi a guerra do Iraque e na necessidade de uma retirada cuidadosa dos EUA, na política de «aproximação» ao Irão, nas prioridades da segurança energética e das alterações climáticas, na legitimidade da guerra no Afeganistão, na utilidade de haver uma ONU. Mas, como europeus que são, os anfitriões de Obama também colocarão algumas reticências nestas questões, lê-se no Financial Times. O essencial, no entanto, será a revitalização da parceria que, para resultar, exige que se compreendam os seus objectivos e potencialidades. Nem Obama nem a Europa podem subestimar esta aliança. E se Obama deve estar preparado para dialogar e ouvir, os europeus devem estar prontos para agir – impondo sanções a Teerão, por exemplo –, com a mesma convicção com que deverão reconhecer que têm de fazer muito mais pela sua própria segurança – começando por modernizar os seus militares e enviando contingentes maiores para o Afeganistão, por exemplo.
Governar a globalização, El País , 17.07.2008
Sabe-se que é inviável tentar solucionar problemas globais com instrumentos que são, na sua essência, nacionais. Mas também se conhece a ingenuidade da ideia de um «governo mundial» democrático e o perigo de se esperar que uma superpotência imponha ordem no mundo, escreve Nicolás Sartorius no El País. Estando a sociedade da globalização sem governo – imperando, portanto, a desregulação, a fraude, a especulação, e a violência –, que mecanismos criar para governá-la? Sartorius sugere o estabelecimento de espaços concêntricos de governação regulada que possam estabelecer regras comuns. Espaços de governação democrática, liberdade comercial e coesão social que ganhem terreno à «selva». Um exemplo seria a coordenação entre a União Europeia, os Estados Unidos e a América Latina. Sem esquecer também as fronteiras sul e leste da UE, e a ineficácia de supostas soluções como a realização de conferências multilaterais e a transferência de donativos ou de ideias defensivas como a de criação de uma aliança democrática.
Contagem decrescente para a Índia, Asia Times Online, 16.07.2008
Faltam já poucos dias para o voto de confiança do Congresso indiano no governo liderado pela Aliança Progressiva Unida (UPA). Em causa está o destino do governo e do acordo que este pretende estabelecer com os EUA a propósito da energia nuclear. Se antes o governo poderia contar com a ajuda da esquerda (que, aliás, apoiou em 2004 a sua eleição), agora, com a retirada em bloco dos quatro partidos daquela ala e a apertada margem para a obtenção da maioria, o governo gere um duvidoso processo de angariação de votos entre os partidos mais pequenos do Congresso, nota Sudha Ramachandran no Asia Times Online. Negociam-se contrapartidas políticas e financeiras e considera-se até a hipótese de trazer ao parlamento dois deputados detidos. Se a oposição ao acordo nuclear é inusitada, sobretudo por parte do partido que esteve na sua origem, o Partido Bharatiya Janata (BJP), a gestão da crise por parte do governo não deixa de ser irresponsável. No final, ninguém sairá ileso deste voto de confiança.
Com quem a Síria fará a paz?, Haaretz, 15.07.2008
A paz entre Israel e a Síria está mais próxima, mas também mais longínqua, do que nunca, lê-se no editorial do Haaretz. Ambos os lados transmitiram a seriedade das suas intenções, e as negociações, através da Turquia, parecem estar no bom caminho. Porém, sabe-se que em Israel não há propriamente um governo; há um governo de transição, com quem é possível ter conversações, mas de quem é difícil obter acordos. A liderança irá mudar daqui a dois meses. E Bashar Assad, visto agora pelos europeus como um herói, um líder sério e fiável, sabe disso. Resta exigir aos aspirantes ao governo de Israel que revelem as suas posições em relação às negociações com a Síria, lembrando que é proibido perder a oportunidade de fazer a paz com os sírios. A melhoria das relações com qualquer país árabe contribuirá para a segurança de Israel mais do que qualquer arsenal de armas que o país possa ter à sua disposição.
O Mediterrâneo, de geração para geração, Le Figaro, 14.07.2008
O Mediterrâneo, a «máquina que fabrica civilização» parece, hoje, empanada, escreve Hakim El Karoui, no Le Figaro. Do ponto de vista cultural, as coisas parecem encaminhadas. Mas no plano económico as duas margens do Mediterrâneo permanecem afastadas, assim como no plano político onde, apesar do esforço da França, a ideia de uma União não conseguiu impor-se. Porém, ela é necessária, por razões económicas e geopolíticas. A Europa é o interlocutor natural do mundo árabe, e ainda mais nos tempos que correm. Mas, se todas as condições se reunissem, a integração do Mediterrâneo concretizar-se-ia? Provavelmente não; as memórias dolorosas e as falsas representações continuam vivas nos dois lados do Mediterrâneo. A esperança reside, portanto, nas novas gerações, naqueles que não conheceram o colonialismo e que reclamam da Europa vistos e liberdade, que reconhecem a igualdade de género e que valorizam a economia de mercado. Talvez estas gerações possam ser capazes de enfrentar a omissão de todos os discursos sobre o Mediterrâneo: a necessidade de projectos para a transferência de soberania.
Cegos à escravatura, The New York Times, 11.07.2008
John Miller, antigo embaixador do Departamento de Estado norte-americano para a moderna escravatura, denuncia hoje num artigo do The New York Times aquilo que tem sido a cegueira do Departamento de Justiça em relação a este flagelo. Apesar de aparentemente empenhado nesta causa, o Presidente Bush convive dentro da sua própria Administração com os maiores obstáculos ao reforço legal do combate ao tráfico humano, sobretudo no que diz respeito à escravatura sexual, a mais expressiva forma de escravatura nos EUA. A oposição do Departamento de Justiça é, para Miller, uma questão de choque cultural. Entre os grupos feministas, religiosos ou seculares que apoiam os sobreviventes do tráfico, e os funcionários do Departamento (homens, na sua maioria), a União dos Fornecedores de Serviços Eróticos e a União Americana para as Liberdades Civis. A não ser que queira perder o seu legado e liderança na abolição da escravatura moderna, Bush precisa de intervir em prol deste combate.
Japão: a pobreza, por detrás da fachada, Financial Times, 10.07.2008
Recentemente a violência estoirou nas ruas de Nishinari, Osaka. Trabalhadores revoltaram-se contra a falta de trabalho, revelando fracturas sociais na fachada do mais bem sucedido Estado socialista do mundo, escreve Michiyo Nakamoto no Financial Times. Depois de uma década de estagnação económica, o Japão sofre dos males de qualquer modelo neo-liberal: uma subclasse crescente, alienação social, disparidades de rendimento cada vez mais profundas, número galopante de insatisfeitos. O velho contrato social e laboral, que assegurava estabilidade à maioria dos cidadãos, já não se aplica a uma proporção significativa da população. Não que o desemprego seja elevado, mas os «trabalhadores pobres», os «freeters» (trabalhadores precários), que vivem perto dos limiares da pobreza, crescem a um ritmo alarmante. Se não quiser que a instabilidade do mês passado em Osaka se propague, o Japão precisa de reconstruir a sua rede de segurança social.
Norte-Sul, destinos interligados, Le Monde, 09.07.2008
Provavelmente, o G8 morreu em Pequim, afirma o Le Monde. Ficou por demais evidente que este clube dos mais ricos do mundo não pode regular, isolado, os principais problemas do mundo. Tem de associar às suas reflexões e esforços os principais países emergentes, como a China, a Índia e o Brasil. Relativamente ao aquecimento global, os Oito chegaram a um compromisso importante (de reduzir, em 50% e até 2050, as emissões de gases com efeito de estufa), mas esta meta não fará sentido se não se obtiver uma negociação equilibrada entre o «Norte» e o «Sul», entre novas e velhas potências. E o mesmo é verdade para as crises energética, financeira ou alimentar, a ajuda a África ou ainda as ambições nucleares iranianas ou coreanas e qualquer ameaça à estabilidade mundial. Amanhã, o G13, ou mais.
Nova era, velhos problemas, The Guardian, 08.07.2008
A estreia de Dmitri Medvedev na arena internacional, com a cimeira do G8, será atentamente escrutinada na Rússia, nomeadamente pelas elites que aguardam o mais pequeno sinal de fragilidade no edifício «Putinista», lê-se no editorial do The Guardian. O sucessor de Putin terá de mostrar que consegue ser igualmente duro e independente. Na cimeira, apelando, com Gordon Brown, a uma nova era quando se mantêm os velhos problemas, demonstrou poucos sinais de ser um líder forte. Em termos bilaterais, quase não se viram progressos. Nem a UE tem uma ideia mais clara sobre como lidar com a Rússia, vacilando entre a acomodação e o confronto (ambos pouco viáveis). A Europa precisa de compreender que os líderes russos são como são e conseguem ser populares porque se opõem à influência ocidental. Por isso, e como os nacionalistas são bons a identificar o inimigo, mas maus a definir o interesse nacional, a Europa tem aqui uma oportunidade para moldar o debate actual na Rússia.
Barris de sangue, El País, 07.07.2008
O petróleo é um dos elementos centrais do nosso bem-estar. Considerando o rendimento que conseguimos obter por cada barril de crude, o petróleo ainda é um bom negócio para o Ocidente. Mas não tanto para os países produtores, afirma José Ignacio Torreblanca no El País. São várias as desvantagens associadas à descoberta de petróleo num país: valorização da moeda, perda de competitividade exportadora, subida da inflação e desperdício de recursos públicos em «elefantes brancos». Em consequência deste conjunto de factores, metade dos membros da OPEP são, hoje, mais pobres do que há trinta anos. E para os países pobres, ou em desenvolvimento, o ouro negro pode ser verdadeiramente dramático, e estar intrinsecamente ligado a guerras e ditaduras. Para evitar que estes barris se tornem em «barris de sangue», os consumidores deveriam exigir transparência, sendo um bom exemplo a Iniciativa para a Transparência nas Indústrias Extractivas (EITI). A ela deveria juntar-se uma Carta dos Recursos Naturais, que obrigue os países produtores a repartir os benefícios equitativamente e a investi-los com responsabilidade.
Como gerir o mundo, The Economist, 04.07.2008
A edição desta semana do The Economist reflecte sobre a governação mundial. Clubes como o G8, por exemplo, revelam-se cada vez mais inadequados para a tomada de decisões sobre a economia mundial (sem a Arábia Saudita, sem a China, sem nenhum país africano), afirma a revista. Mas outras instituições são igualmente incompetentes em diversas questões: o Conselho de Segurança, na não-proliferação nuclear, o FMI na crise financeira actual, a OMC, na incapacidade de accionar Doha; da lista parece só escapar o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS). Muitas justificações foram sendo apresentadas para adiar as reformas, mas os apelos para a revitalização do governo do mundo são cada vez mais incisivos. Há quem queira recomeçar de novo, como McCain com o seu plano de Sociedade de Democracias, ou simplesmente eliminar algumas instituições, como alguns nos EUA. A decisão mais acertada seria, no entanto, melhorar o funcionamento das instituições que temos, reconhecendo, nomeadamente que a economia mudou a ordem mundial. Confrontados com a necessidade de reformar as instituições internacionais, os mais ricos, e os EUA em particular, têm de escolher: ou continuam agarrados ao poder, deixando que a China e a Índia formem os seus próprios clubes, ou partilham o poder, assim como os interesses e os problemas globais. Isto é que seria uma forma decente de gerir o mundo.
O fim da nação?, The Washington Post, 03.07.2008
Em vésperas do Dia da Independência um relatório de um think tank norte-americano levantou a questão da erosão da identidade nacional face à pressão da diversidade da população e à negligência do sistema educativo. Mas as suas conclusões parecem exageradas, atesta David Broder no The Washington Post. É verdade que a identidade nacional da América, tal como a definiu Thomas Jefferson, assenta mais num conjunto de ideias do que numa etnicidade comum. Ideias que emanam da Declaração da Independência e da Constituição, assim como das decisões do Supremo Tribunal. Não sendo herdadas, mas aprendidas, o que preocupa os autores daquele relatório é, por um lado, a ignorância dos jovens (graduados, muitos) daqueles textos, e por outro, a fragmentação da sociedade decorrente da existência, por exemplo, de boletins de voto multilingue ou de aulas bilingues. Mas para Broder, estas conclusões ignoram a grande vitalidade que o sistema americano ainda goza. Este ano, mais do que nunca, milhares de jovens registaram-se e foram votar, e estão envolvidos nas campanhas e a trabalhar nas suas comunidades. Mesmo que não conheçam assim tão bem a Constituição.
A Europa não está a conseguir recuperar o seu idealismo, Financial Times, 02.07.2008
Os referendos são normalmente olhados com desconfiança pelos que acreditam no governo representativo, mas, paradoxalmente, os franceses, os holandeses e agora os irlandeses usaram o referendo para protestarem contra a falta de representatividade na UE, escreve Larry Siedentop no Financial Times. Os eleitores já perceberam o que os seus governos e a Comissão Europeia ainda não entenderam: que as importantes transferências de poder para Bruxelas têm criado um risco de descrédito mútuo; parlamentos nacionais e o Parlamento Europeu perderam, ambos, legitimidade. A integração europeia bem que poderá estar a enfraquecer as culturas democráticas europeias. A resposta europeia ao problema do «não» irlandês, nomeadamente, caiu nos mesmos erros que produziram esse problema. Sobretudo não entendeu que os mercados não criam gratidão, enquanto que os sistemas políticos o podem fazer, compensando as desigualdades produzidas pelos mercados. Oferecendo, em substituição das democracias liberais nacionais, uma pseudo-democracia, a UE está a perder o seu idealismo.
Turquia: que caso é este?, Turkish Daily News, 01.07.2008
Quando os processos levantados pelo procurador-geral turco contra o partido no governo, o AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento), e o pró-curdo DTP (Partido para uma Sociedade Democrática), ninguém pensou bem nos aspectos legais e no cerne desta questão. Nem sequer se consideraram possíveis impactos políticos, afirma Ismet Berkan no Turkish Daily News. É que abrir processos de encerramento de partidos é normal, mas o que já não é tão normal é que casos destes acabem mesmo por proibir partidos. Enquanto Tribunal Constitucional, o colectivo de juízes está, neste caso, a agir de acordo com o Código Penal já que, de facto, resultará deste processo uma «pena». No entanto, nestes casos não há provas «sólidas» de crime, apenas considerações, convicções... até legislação parlamentar, aprovada pela maioria dos representantes parlamentares, está a ser submetida como prova. O que é que afinal está em causa neste julgamento?