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Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais
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Paula Domingos . IEEI
2007 reavivou o debate acerca do Tratado Constitucional. As rejeições francesa e holandesa ao documento levaram à suspensão do processo de ratificação há dois anos. A actual presidência da UE quer encontrar uma solução para o impasse antes das próximas eleições para o Parlamento Europeu, que deverão ocorrer no primeiro semestre de 2009.
O reacender do debate em torno do Tratado Constitucional surgiu quando a Presidência alemã da UE elegeu o tema como uma das suas prioridades, procurando superar o impasse suscitado em 2005 com as rejeições francesa e holandesa. O novo presidente do Parlamento Europeu também veio a público sublinhar a urgência de se encontrar um novo Tratado. A estas duas vozes veio juntar-se o grupo dos “Amigos da Constituição Europeia”, que reúne os 18 Estados-membros que já ratificaram o actual documento.
Depois de um longo período de reflexão acerca do futuro da Europa na sequência da rejeição do Tratado Constitucional em França e na Holanda, a Europa tenta seguir em frente procurando alcançar novas saídas. A Alemanha, que actualmente preside à União Europeia, elegeu o retomar do debate como uma das prioridades para o presente mandato do Programa de Trabalho da Presidência Alemã.
Assim, o Conselho Europeu de 21 e 22 de Junho será dedicado ao futuro do Tratado Constitucional. É que, tal como afirmou a chanceler alemã Ângela Merkel durante a apresentação Programa germânico, a ratificação do Tratado tem de ser uma prioridade. “A fase de reflexão terminou. Até a próxima eleição ao Parlamento Europeu, no início de 2009, devemos ter uma Constituição”. É que o Tratado traz as reformas internas necessárias para assegurar a viabilidade de uma União Europeia alargada.
Ao longo do primeiro semestre do ano serão efectuadas consultas a todos os parceiros e instituições europeias tendo em vista ultrapassar este impasse e prosseguir o processo de reformas da União. Em Junho, a presidência alemã irá apresentar ao Conselho um relatório com um leque de sugestões tendo em vista resolução deste impasse. Além disso, será estabelecido um cronograma tendo em vista a ratificação do texto constitucional, para que já se possa ter um novo documento aquando das próximas eleições para o Parlamento Europeu, que terão lugar no início de 2009.
Em sintonia com esta posição está o Programa das Presidências Alemã, Portuguesa e Eslovena que foi apresentado no início de 2007 e que marcará a agenda europeia nos próximos 18 meses. Tal como pode ler-se no referido documento, o que se pretende é: “por um lado, procurar explorar o melhor possível as possibilidades proporcionadas pelos actuais tratados por forma a obter os resultados concretos que os cidadãos esperam e, por outro lado, fazer avançar os trabalhos com base no mandato estabelecido pelo Conselho Europeu.”
Este renovar da preocupação relativamente à aprovação do Tratado estende-se às restantes instituições europeias. Por exemplo, o recém-empossado presidente do Parlamento Europeu, o também alemão Hans-Gert Poettering, afirmou no seu discurso de tomada de posse a relevância de se seguir em frente com a ratificação. “A UE não pode continuar a ser dirigida com os instrumentos ultrapassados dos actuais tratados”. Assim, “o Tratado Constitucional vem fortalecer tanto o Parlamento Europeu como os parlamentos nacionais, implicando um acréscimo, em termos de parlamentarismo e de democracia”.
É que desde 2004, com o alargamento da União a Leste, é comum afirmar-se que o Tratado de Nice deixou de conseguir ir ao encontro das necessidades de funcionamento da União. Entre outras alterações, o novo documento, pretendia suprir possíveis lacunas, além de fazer a afirmação dos objectivos e valores da UE, não esquecendo os princípios de base das relações entre a UE e os Estados-Membros.
Por seu lado, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou recentemente que a resolução do impasse causado pela não ratificação do Tratado terá de ser resolvida pelos governos de todos os Estados-membros, que o deverão ratificar. Este responsável acrescentou ainda que uma Europa a 27 precisa de “uma maior eficácia decisória, de uma legitimidade democrática reforçada e de maior coerência no plano externo”. Além disso, Barroso afirmou recentemente numa comunicação na Fundação Konrad Adenauer que "é importante preservar a substância, o espírito e os objectivos do projecto constitucional inicial" para que o funcionamento democrático da UE avance.
Em paralelo com estas posições surgiram recentemente os “Amigos da Constituição Europeia”, um grupo de trabalho liderado por Espanha e pelo Luxemburgo, que reúne os 18 Estados-Membros que já ratificaram o Tratado – Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Finlândia, Grécia, Hungria, Itália, Letónia, Lituânia, Malta e Roménia – aos quais se juntaram enquanto observadores Irlanda e Portugal. Convém referir que, de entre estes países, o caso da Alemanha é algo diferente. O facto de Berlim deter no primeiro semestre de 2007 a presidência da União obriga a um certo distanciamento em relação a este tipo de tomadas de posição. Por outro lado, o processo de aprovação do Tratado Constitucional na Alemanha não está concluído, faltando ainda a ratificação pelo Presidente Horst Koehler. [Ver aqui o ponto da situação relativamente ao processo de ratificação do Tratado Constitucional]
A face mais visível da acção deste “grupo” foi a realização – a 26 de Janeiro último – de uma reunião informal de Ministros dos Negócios Estrangeiros destes países. Segundo um artigo publicado conjuntamente pelos responsáveis pelos assuntos europeus do Luxemburgo e de Espanha, respectivamente, Nicholas Schmit e Alberto Navarro, os Estados que já ratificaram o Tratado não só representam dois terços dos 27 Estados-Membros, como também reúnem mais de 270 milhões de cidadãos europeus.
O objectivo deste encontro foi ajudar a presidência alemã a encontrar uma saída para a actual situação, realçando que estes países mantêm o seu apoio ao documento. Além disso, tal como sublinham os promotores, acreditam que as questões a que devem responder os europeus é “Que modelo de Europa queremos para o século XXI?” ou “O que é que os europeus querem fazer em conjunto?”. Neste contexto acreditam que faz falta uma Europa melhor, mais coordenada, eficaz e com mais políticas comuns capazes de responder aos problemas que afectam os cidadãos no seu dia-a-dia. Assim, consideram que o actual texto estabelece o Modelo de Europa em que estes 18 Estados-membros se revêem. Sendo que, este modelo se resume em quatro ideias chave:
Depois de quase dois anos em que as ratificações ao Tratado Constitucional estiveram praticamente suspensas, o assunto parece ganhar novo fôlego com a presidência alemã da UE, resta aguardar por Junho e pelo Conselho Europeu para ver que propostas surgem e para ver que passos podem ser dados em prol da UE. Todavia, tal não se configura fácil, uma vez que alguns Estados – por exemplo a Polónia, que ainda não ratificou o Tratado, ou a Holanda, cuja população rejeitou em referendo o actual documento – se mostram mais favoráveis em ver aprovado um novo texto. Resta aguardar pela pelo relatório que os responsáveis alemães irao apresentar no Conselho Europeu de Junho e que decorre das conversações e compromissos estabelecidos entre todos os intervenientes europeus.